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Homeopatia e Coronavirus (2) – considerações sobre protocolo para manipulação de nosódio Sars-coV-2

05/04/2020

Fui consultado por colega médica homeopata por minha opinião sobre a viabilidade da obtenção e produção de um nosódio de Sars-coV-2 – vírus responsável pela grave pandemia Covid-19 que atinge o mundo todo – por parte dela, a qual trabalha em ambiente hospitalar, no intuito de contribuir para a produção de um medicamento homeopático para prevenção da epidemia.

Para responder a sua dúvida entrei em contato com a amiga farmacêutica homeopata Amarilys de Toledo César para entender quais os critérios, caso possível, para que esse medicamento fosse viabilizado – e qual a validade do mesmo do ponto de vista homeopático.

O que aprendi é que o procedimento é viável caso siga um protocolo mínimo para garantir sua validade e qualidade. Como soube que outros homeopatas estão se lançando à esta empreitada de forma voluntariosa e sem o devido conhecimento farmacotécnico, o resultado pode ser inútil do ponto de vista terapêutico e bastante arriscado para os envolvidos se cuidados preliminares não forem tomados.

Para isso resumo abaixo os passos mais importantes que me foram passados, a serem seguidos nesse caso:

– nenhuma farmácia homeopática está equipada para lidar com material biológico contaminante – caso passassem a manipular uma secreção contaminada a chance de disseminação da doença seria alta, e seria um desastre para as equipes e para a própria rede;

– 0 nosódio correto seria aquele baseado em vírus in vitro e não in vivo – porém como é uma situação excepcional teria de ser criado algo hibrido, resultando em um heteroisoterápico sem garantia de especificidade de resultados clínicos;

– o material teria que ser manipulado em ambiente hospitalar até uma 6CH, depois destruído e somente essa 6CH higienizada sairia do hospital para a finalização em potência acima da 12CH, em uma farmácia homeopática especificamente designada;

– essa farmácia seria eleita para receber, manipular e distribuir a matriz para todas as outras – novamente para evitar possível contaminação e diferenças grandes de qualidade de manipulação;

– o material deveria ser obtido a partir de um pool de pacientes para garantir abrangência, e o mais importante: de paciente positivos laboratorialmente – isto é, diagnósticos confirmados para Covid-19 e não apenas baseados na clinica, para garantir que fosse obtido um nosódio o mais próximo possível da doença correta;

– a potência para dispensação e uso teria obrigatoriamente que ser à partir de uma 12CH – critério para evitar qualquer risco ou suspeita de contaminação.

A colega farmacêutica acha que observado o protocolo acima descrito em linhas gerais, seria possível produzir de forma relativamente rápida e com uma qualidade mínima necessária um tipo de nosódio da Covid-19 – porém o grau de dificuldade do procedimento e os riscos envolvidos podem inviabilizar essa opção.

Além disso, e aqui vai minha opinião, esse seria um medicamento sem grande grau de confiabilidade quanto à capacidade real de prevenção – uma camada a mais de proteção não garantida que não considero superior aos medicamentos do gênio epidêmico ou aos sintomáticos, conforme discutido em artigo anterior

*****

A respeito dessa discussão foi produzido um excelente parecer por parte da ABFH (Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas) dirigido à própria especialidade, do qual destaco abaixo trechos que são de relevância mais geral:

HOMEOPATIA EM TEMPOS DE PANDEMIA. OPÇÕES PARA TRATAMENTO DE DOENÇAS INFECCIOSAS

Amarilys de Toledo Cesar, farmacêutica homeopata, doutora em Saúde Pública USP, diretora da HNCristiano

Colaboração da Diretoria da ABFH (biênio 2019-2021)

 

[…] Por que apresentamos as possibilidades de usar medicamentos homeopáticos, ainda hoje, para auxiliar no controle de doenças epidêmicas?

  1. Porque estamos em plena pandemia, situação que não imaginávamos conhecer tão de perto.
  2. Porque não há vacina para prevenção neste caso.
  3. Porque há pouquíssimos medicamentos alopáticos, com protocolos já definidos, para tratar os sintomas

E a terapêutica homeopática pode ajudar, eventualmente, a prevenir a doença, mas certamente a tratar os seus sintomas, através de algumas possibilidades clássicas.

Possibilidade 1 – Tratamento homeopático individualizado: o método clássico é a melhor maneira de cuidar de um doente, isto é, coletando seus sintomas de doença, comparando com suas características durante a saúde (para determinar se alguns dos sinais e sintomas já estavam presentes, já faziam parte das características do indivíduo), e assim buscar um medicamento individualizado, que cubra todos os seus sintomas, ou a maior parte deles, ou os sintomas “BIP” (bem definidos, intenso e peculiares). Este é sem dúvida alguma o melhor que a terapêutica homeopática pode oferecer. Porém, se já é difícil de alcançar um grande número de pacientes em épocas tranquilas, em tempos de epidemia se torna extremamente restrito de ser aplicado.

Possibilidade 2 – Gênio epidêmico. Hahnemann criou o conceito de “gênio epidêmico”, que é o seguinte: para medicar uma doença epidêmica, deve-se anotar os sintomas que diversos doentes apresentam. Em seguida, deve-se procurar um medicamento homeopático que sirva para a maior parte destes sintomas. Este medicamento pode ser usado tanto para tratar os doentes, como tratar com antecedência o surgimento dos mesmos sintomas. Isto é uma prevenção específica para aquela doença. A ideia básica da homeopatia, quando dizemos que atua pela lei da semelhança, é que uma substância, que provoque sintomas em pessoas saudáveis, pode ser usada para tratar os mesmos sintomas em uma pessoa doente.

[…] No caso desta pandemia, homeopatas de todo o mundo estão buscando o medicamento que provoque sintomas os mais parecidos do Corona vírus em pacientes saudáveis. É por isto que temos recebido, nas farmácias, muitas prescrições de Arsenicum album 30CH (que teria sido indicado pelo médico homeopata indiano Farokh Master, na forma de 3 doses em jejum, em dias subsequentes, a serem repetidas mensalmente, ou semanalmente segundo outros. Esta recomendação teria sido  incorporada pelo Ministério da AYUSH, que são as medicinas complementares daquele país, Ayurvedica, Yoga, Unani, Siddha e Homeopatia. Em época de tantas notícias e desmentidos, atualmente o site do Ministério traz um pedido para que enviem sugestões e recomendações de esquemas de tratamento e resultados. Ou de Camphora 1000CH ou 1000FC (que teria sido indicada pelo médico homeopata indiano Sankaran, ministrante de aulas no mundo todo, inclusive aqui no Brasil, onde esteve em julho último, também na forma de 3 doses em jejum, em dias subsequentes. Não se encontram muitas mensagens oficiais; na maior parte são comunicados que se espalham através da mídia social). Ou de Aviaria (Tuberculinum aviaria), Oscilococcinum (Anas barbariae hepatis et cordis extractum), Carbo vegetabilis, Influenzinum e Gelsemium, todos na 201CH (fórmula anteriormente indicada pela presidente do IHB, Instituto Hahnemanniano do Brasil). Ou China 6CH, sugerido como o gênio epidêmico pela ABRAH. Ou só de Gelsemium. Ou só Chininum muriaticum. Ou só Antimonium tartaricum. Em resumo, há várias indicações para o melhor medicamento (ou a melhor formulação, proposta mais abrangente na falta de um só medicamento) a ser escolhido por provocar, em pessoas saudáveis, sintomas semelhantes a aqueles observados nos doentes, em relação aos sintomas respiratórios.

Uma dificuldade para esta escolha é que os sintomas dos pacientes no Brasil podem ser diferentes daqueles dos pacientes de outros países. Talvez alguns doentes não chegam a manifestar sintomas respiratórios. Outro aspecto é que poucos médicos homeopatas têm lidado diretamente com doentes. Alguns tem pacientes com sintomas, porém uma vez que a orientação é ficarem em casa, independente de sua evolução ser positiva ou de piora, muitas vezes não se sabe se estavam infectados com o COVID-19 ou outros. Mesmo em hospitais, tem havido óbitos antes que sejam conhecidos os resultados dos exames. Assim, estudar sintomas de doentes confirmados, não tem sido tão fácil. Talvez nos próximos dias será mais fácil escolher um melhor medicamento como gênio epidêmico. Mas você já pode entender de onde vem diferentes prescrições para prevenção da virose.

É importante que você nunca garanta que o medicamento solicitado, com prescrição médica, farmacêutica, ou mesmo sem prescrição, vá proteger contra o COVID-19. Você pode responder que estes medicamentos tem sido bastante prescritos, por homeopatas de muita experiência, que esperam poder ajudar a prevenir, ou ao menos, se a pessoa adoecer, que seus sintomas sejam mais brandos. Esteja certo de nunca garantir que a pessoa não vai adoecer, mesmo que ela insista nesta pergunta. Você pode estar sendo observado, e até filmado. E suas respostas serem divulgadas, mesmo pela mídia, fora do contexto. E haver um grande prejuízo, inclusive com implicações que extrapolam a realidade sanitária.

Possibilidade 3 – Tratamento dos sintomas. Os medicamentos homeopáticos clássicos passam por processo de experimentação e são usados de acordo com os sintomas que eles produzem em pessoas saudáveis. O uso dos sintomas que apareceram nos experimentadores leva a uma infinidade de possibilidades, que é individual. Assim, se os sintomas pioram, de uma maneira geral, entre a 1:00 e as 3:00 horas da manhã, com o doente mostrando um enfraquecimento marcante de todas as funções fisiológicas, grande ansiedade que pode chegar ao medo da morte, secreções queimantes, você vai pensar em Arsenicum album. Já se a fraqueza vier acompanhada e hiperestesia ao barulho, odores, hipersensibilidade ao toque, com piora em dias alternados, você vai pensar em outro medicamento, talvez China officinalis. E se houver anosmia e ageusia (perda de olfato e sabor, que são sintomas associados ao COVID-19), e secreção suave, não queimante, humor cambiante, sem a piora no início da madrugada, você já vai pensar em Pulsatilla, e não mais em Arsenicum. Que medicamento alopático tem esta riqueza de possibilidades? Nenhum, não é? Mas os medicamentos homeopáticos terão uma melhor eficácia, quanto mais combinar com os sintomas “BIP”. Ou seja, diversos medicamentos podem ser escolhidos, para cada caso individual.

Possibilidade 4 – Dinamização do agente etiológico. Homeopatas podem tratar doenças epidêmicas através do preparo de medicamentos homeopáticos feitos com o agente etiológico da doença. Aqui, a premissa básica da homeopatia é a lei da semelhança. E nada mais semelhante do que o igual. Então a teoria nos diz que sintomas provocados por uma bactéria, por exemplo, podem ser tratados, ou prevenidos, através de um medicamento homeopático feito a partir desta mesma bactéria. Esta é a chamada lei da igualdade, que pode ser vista como uma particularidade da lei da semelhança. Há vários exemplos, como o próprio Influenzinum.

O preparo dos medicamentos homeopáticos estão perfeitamente descrito na Farmacopeia Homeopática Brasileira. Os medicamentos que aparecem neste texto publicado pela ANVISA, que tem força de lei, assim como seus métodos de preparo, são oficiais e podem ser feitos no país.

[…] Vamos relembrar o que são os Bioterápicos.

A FARMACOPÉIA HOMEOPÁTICA BRASILEIRA e o MANUAL DE NORMAS TÉCNICAS da ABFH (Associação Brasileira de Farmacêuticos Homeopatas) seguem a literatura francesa e definem BIOTERÁPICOS de uma maneira ampla e pouco específica: “preparações medicamentosas obtidas a partir de produtos biológicos, quimicamente indefinidos: secreções,

excreções, tecidos, órgãos, produtos não quimicamente definidos (secreções, excreções patológicas ou não, certos produtos de origem microbiana, alérgenos) que servem de matéria prima para as preparações bioterápicas de uso homeopático”. Essas preparações podem ser de origem patológica (nosódios) ou não patológicas (sarcódios), elaboradas conforme a farmacotécnica homeopática. Os bioterápicos de estoque são produtos cujo insumo ativo é constituído por amostras preparadas e fornecidas por laboratório especializado.

Um bioterápico que tem sido muito utilizado é o Influenzinum, que é descrito como feito a partir da vacina anti-gripe. Como hoje há diversos fabricante de vacinas, que produzem versões anuais, dependendo das cepas definidas pela OMS, em função da estimativa do vírus de gripe que deverá infectar as regiões do globo, existem diferentes Influenzinuns produzidos a partir de vacinas diferentes, identificados segundo o ano de utilização. Um laboratório de matrizes de São Paulo acabou de produzir e disponibilizar para todas as farmácias o Influenzinum 2020, a partir da dinamização da vacina que está sendo aplicada na rede pública. Uma vez que a preparação foi feita a partir de um material patológico, pode ser chamado de nosódio. Também pode ser chamado de isoterápico, que são preparações medicamentosas obtidas a partir de insumos relacionados com a patologia/enfermidade do paciente, elaboradas conforme a farmacotécnica homeopática, sendo classificadas como autoisoterápicos e heteroisoterápicos. Ou seja, a vacina da gripe dinamizada, para produzir o Influenzinum, pode ser considerada como um bioterápico, nosódio, isoterápico, heteroisoterápico. Claro que são só classificações, mas importa entender a diferença entre diversas preparações possíveis. É importante também entender por que se usa a dinamização de uma vacina, em vez da dinamização do vírus em sí. Os motivos passam pela dificuldade em conseguir o material, no caso o vírus, isolado. E também para combater possíveis efeitos de outros componentes da vacina, não só do vírus.

Se tivéssemos o vírus da gripe isolado, sua dinamização não levaria ao Influenzinum, mas sim Virus XYZ (sua caracterização, nome, condição de vivo, atenuado ou morto, etc) dinamizado. E caso coletássemos o vírus a partir da secreção de doente, faríamos um autoisoterápico (isoterápicos cujos insumos ativos são obtidos do próprio paciente, como fragmentos de órgãos e tecidos, sangue, secreções, excreções, cálculos, fezes, urina, culturas microbianas e outros; e destinados somente a este paciente). Esta preparação não levaria o nome do vírus, mas sim de um determinado paciente, como Autoisoterápico de Secreção nasal de João Silva, por exemplo.

[…] Nem sempre se consegue o material ideal para produzir um medicamento homeopático. Nesta pandemia de Corona vírus, por exemplo, seguindo os exemplos acima, poderíamos dinamizar o próprio vírus, o que seria o ideal. Porém, imagine a dificuldade para conseguir este material, as medidas de segurança, as diversas barreiras que a homeopatia está acostumada a enfrentar divulgando que “medicamento homeopático dissemina vírus aos seus usuários”! Praticamente impossível, especialmente neste momento! A possibilidade seguinte seria conseguir o vírus, através da vacina, e dinamizá-la. Mas no momento não há vacina como fonte do vírus vacinal.

Sobra então a última possibilidade, que seria produzir um nosódio através da coleta de secreção de vários indivíduos infectados, um “pool” de secreções. Claro que outros componentes, que não podemos prever, estarão presentes também. Porém, vamos nos lembrar, que em quantidades imponderáveis, não podem provocar a doença real. Poderia provocar sintomas de experimentação, difíceis de serem previstos. Por exemplo, se um dos pacientes doadores da secreção fosse também portador de uma infecção bacteriana na garganta, será que o nosódio assim preparado traria o risco de eventual contaminação? Não, isto certamente não aconteceria, porque não haveria partículas com capacidade infectante no material após dinamização. E eventuais sintomas patogenéticos desapareceriam rapidamente. Porém devemos nos lembrar que este procedimento não está sendo incentivado, pois iria requerer local e equipamento especial para a coleta e dinamização. Não é sair fazendo em farmácia de qualquer maneira que você vai conseguir resultados. Teria que ser um processo muito cuidadosamente realizado.

O momento é de muita crise, começando pela sanitária, chegando à econômica, social e política. O conhecimento que temos sobre os medicamentos homeopáticos é suficiente para justificar tentar o preparo de um nosódio, a partir do pool de secreções de paciente infectados. A  teoria fundamenta a ação, através da semelhança, ou talvez do máximo de semelhança, a igualdade. Temos provas suficientes de que terapeuticamente funciona. Se viermos a ter disponível o vírus dinamizado, certamente iremos abandonar o medicamento feito a partir do “pool” e passar a utilizar o de vírus. Porém, neste momento, se o nosódio proteger, ao menos parcialmente a população, os profissionais que estão nos cuidados à saúde e na manutenção das atividades essenciais; se ajudar a minorar os sintomas dos doentes, o esforço valerá a pena! Vejam o que disse um especialista da OMS em 2014, durante a epidemia de Ebola: “é ético oferecer intervenções não éticas com eficácia e efeitos adversos não conhecidos, como potencial prevenção ou  tratamento” desde que não haja vacinas ou anti-virais disponíveis.

Homeopatas costumam citar que a homeopatia sempre cresceu muito durante epidemias. Epidemia maior do que agora? Temos que atuar. Até para confirmar que a terapia que Hahnemann propôs continua válida, atual e extremamente valorosa!

E novamente, só afirme que a homeopatia pode cuidar dos sintomas. Nunca diga que o medicamento homeopático pode prevenir ou curar esta virose.

 

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